nove anos

25 de maio de 2026 em real life

em novembro de 2016, quando meus amigos me informaram — a palavra realmente é “informaram”, como quem diz que no mês que vem você precisará declarar o imposto de renda — que acharam no meio da rua um gatinho preto e branco pra mim, eu não soube muito bem como reagir. eu já havia manifestado o desejo de ter um bichinho, mas não havia me preparado completamente para isso e me enchi de incertezas. nunca tive bichos em casa com exceção dos pouquíssimo interativos (e como não seriam) passarinhos que meu pai criou em gaiola. quando eu tinha uns quatro anos eu abri a gaiola de um enquanto falava “vai com deus, passarinho!”.

ainda sem superar minhas incertezas, recebi essa gatinha que cabia na palma da minha mão no kitnet de 30m2 em que eu morava. coloquei uma caixinha de areia no banheiro, potinhos de comida e água no corredor e aos pouquinhos ela foi explorando e descobrindo a casa. eu só precisei permitir que ela entrasse, ela fez todo o resto do trabalho. nos primeiros dias eu achava que ela era ele. antes de receber seu nome verdadeiro, ela se chamou juarez, depois zubumafu e, finalmente, percebendo que era uma gatinha, a nomeei maracutaia.

maracutaia esteve comigo durante a construção de minha casa e do que eu vim a desenvolver como ideia de meu próprio lar ao longo dos anos subsequentes. enquanto ela ia se desenvolvendo e se transformando num forte e saudável gato adulto, eu também fui sentindo o passar dos anos e me transformando em uma pessoa madura. eventualmente nos encontramos no meio do caminho — com a passagem mais rápida do tempo à qual ela se sujeitava, fomos jovens adultos ao mesmo tempo e nos tornamos adultos meio ranzinzas também à mesma medida. se ela virou um gato meio mal-humorado, é porque eu era, enquanto gente, igualmente meio pessimista. maracutaia se tornou a minha personalidade na casa mesmo quando eu não estava, e quando eu estava, éramos sempre dois à favor da mesma ideia e formávamos maioria em qualquer votação.

eu bem gostaria de dizer que ela me trouxe um desafio de aprender a lidar com um bichinho que me trouxe uma linguagem totalmente desconhecida e quão grande foi o crescimento que tive nesse sentido enquanto ela morou comigo. mas a verdade é que ela me ensinou todos esses conceitos de um jeito muito natural. nunca imaginei que fosse possível me comunicar com um gato só pelo olhar. foi tudo muito fácil. era como se eu já soubesse. quem não entendesse, que se adequasse ao nosso método. estava ótimo pra mim desse jeito.

vivemos por vários anos anos em algumas rotinas diferentes. quando eu passava o dia inteiro trabalhando fora de casa, resolvi adotar um outro gatinho pra que eles fizessem companhia um ao outro enquanto eu estivesse ausente. ele, sim, ganhou o nome permanente de zubumafu. tentei fazer com que ela, com um ano, adotasse aquele minúsculo gatinho laranja como uma mãe, mas ela preferiu ser uma irmã mais velha implicante e mal-humorada. atravessamos uma pandemia juntos, passei a trabalhar em casa e, já passando o dia inteiro juntos, nos mudamos de casa umas duas vezes. minha casa era onde ela estivesse.

não é exagero nem sentimentalismo excessivo meu quando falo que maracutaia conquistou uma legião de fãs. ela tinha uma personalidade que conquistava mesmo quem não era lá muito fã de gatos. participava de todas as atividades da casa, estava em todos os lugares, atacava quem não ia com a cara e tinha uma inteligência inacreditável. conseguia se comunicar com qualquer pessoa. miava no seu pé e te levava até onde estava o que lhe interessava — normalmente água ou comida. destrancava portas, abria torneiras, posava para fotos e vigiava a rua pela janela. o afeto e a permissividade dela eram para poucos. a verdade é que todo mundo queria ser aprovado e aceito pela maracutaia.

se o zub tem, instintivamente, seus receios e reservas pra se aproximar de qualquer outra pessoa e até de mim, isso nunca foi verdade com maracutaia. nossa expressão do amor sempre foi a mesma. se amamos alguém, a gente grita, brinca, implica, torra a paciência e enche o saco. era impressionante o quanto minha personalidade foi passada pro comportamento e temperamento de um gatinho. de uma forma inexplicável, mas facilmente perceptível, éramos a mesma pessoa. dividíamos impressões, sentimentos e julgamentos. tudo sempre foi absolutamente natural. fomos uma dupla fenomenal.

nove anos, seis meses e alguns dias depois, me despeço de maracutaia, muito antes do que achei que me despediria. é como se metade do meu coração deixasse de existir. escrevi tantos outros textos enquanto ela fazia questão de manifestar sua presença passeando entre minhas pernas enquanto eu batia nervosamente no teclado, mas hoje é o zub que me faz companhia ronronando deitado do meu lado. ele sempre foi mais reservado, mas mesmo sem entender exatamente o que aconteceu com a irmã, parece ter entendido o papel que lhe cabe a partir de agora. ele não pode mais se dar ao luxo de passar o dia dormindo sozinho no quarto. na verdade eu também não consigo entender muito bem o que aconteceu. é tudo muito injusto.

maguinha descansou por volta das 19h do dia 23 de maio de 2026. viveu uma vida repleta de amor e carinho e deixa saudades numa intensidade que não tenho condições de descrever.

a última traquinagem de minha melhor parceira foi justamente não estar aqui pra me ajudar a lidar com o vazio sem tamanho que ela deixou ao descansar. maracutaia me ajudou a lidar com muitas crises e momentos difíceis, mas não pôde me ajudar a lidar com sua própria ausência. estive com ela até o último momento, mas sinto que ir embora não era a ideia dela. ela nunca faria isso comigo, eu nunca faria isso com ela. me resta uma vida meio perdida sem você por aqui, maguinha. vou fazer o melhor que consigo, mas não te prometo nada. te amo pra sempre.

 

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