uma caixinha de som bluetooth de procedência duvidosa começa a tocar marcas do que se foi, do the fevers e com ela sou lembrado de que o ano está acabando. um mês depois, resolvo escrever meu post anual com a listagem do que ouvi de melhor ao longo dos últimos 12 meses. há de se considerar que o “anual” está aí de forma meio questionável, visto que o último post foi feito em 2023. para minha sorte, ninguém liga.

conhecer novos artistas se torna cada vez uma experiência mais analógica — como talvez não devesse ter deixado de ser. em tempos de artistas inexistentes criados por inteligência artificial, basear-se nas recomendações de amigos, de críticos confiáveis e se aprofundar na obra de artistas que se já conhece talvez sejam as melhores formas de encontrar algo de novo para ouvir. estes foram os achados que ocuparam minha mente em 2025, uma listagem criada em parte com base numa percepção completamente arbitrária (importantíssima) e em parte com base nos dados do ano que o last.year do last.fm me revelou.
magdalena bay – mercurial world (2021)
no último mês de janeiro me senti na obrigação de escrever algo sobre imaginal disk, o disco mais recente do magdalena bay que me fez me interessar pela banda e continuar escavando as criações da maravilhosa dupla indie-synth-pop-eletro-wave composta por magdalena (a moça de franja cantando) e bay (o cara loiro tacando fogo no roland juno-di). depois de ouvir praticamente todo o material que eles já haviam criado incluindo as experimentações do soundcloud, me sinto na obrigação de destacar mercurial world, o primeiro álbum de estúdio do duo.
mercurial world é menos experimental que imaginal disk e tem uma sonoridade mais pop e mais carregada de synths. definitivamente não falo isso em tom de crítica: temos aqui um álbum bastante enérgico e divertido em quase todas as faixas, mas com o cuidado que os levou a se destacarem no gênero. tudo é muito conciso e bem escrito; a estética anos 2000 é muito forte nas letras e em toda a textura do instrumental que rege o disco. os sintetizadores carregados, os beats marcados, as guitarrinhas viajadas e a voz com bastante efeito dão o tom desse que é um dos álbuns mais legais que você pode ouvir hoje.
favoritas: mercurial world, secrets (your fire), chaeri, domino, the beginning
mais: mica tenenbaum (a madalena) é nascida em buenos aires e apesar de ter se mudado para a flórida enquanto ainda era um bebê, ela não nega suas origens e nos presenteou com essa maravilhosa versão de domino em espanhol. que no caso se chama dominó, por favor. aproveite que já abriu a página deles no youtube e veja o restante dos clipes — todos maravilhosos.
terno rei – nenhuma estrela (2025)
há uma característica difícil de descrever que me atrai muito na música do terno rei. trata-se de uma certa maturidade no som e nas letras com a qual acho muito fácil me identificar; é uma banda composta por brasileiros na casa dos 30 anos lidando com questões que por vezes são as minhas questões. a temática flutua entre uma inércia com tons de nostalgia e um otimismo de quem esporadicamente comete o crime de amar demais, mas a apresentação desse discurso até então sempre vinha com uma roupagem um pouco voltada para a melancolia. em nenhuma estrela a banda, agora já bastante consolidada na cena de música alternativa, se permite uma certa aproximação com uma sonoridade pop e músicas que dão vontade de ouvir balançando a cabeça no ritmo como casa vazia, que brinca sem cometer erros com vários elementos como efeitos de voz e inserções pontuais de metais.
é verdade que de forma mais panorâmica os sintetizadores assumiram um papel menor pra dar espaço a guitarras mais presentes, mas também é verdade que nenhuma estrela não existiria sem todo o caminho percorrido pela banda ao longo dos últimos anos. se por um lado conseguimos encontrar uma sonoridade mais upbeat, em particular no lado A do álbum, seria injusto de minha parte falar que a melancolia foi deixada de lado. a abordagem ainda é a dessa maturidade de quem sabe que depois dos 30 a vida não é um mamão mas ainda assim se permite sonhar e ficar bobo feito adolescente.
favoritas: peito, relógio, 32, tempo, viver de amor
mais: foi divertidíssimo estar num show do terno rei em um dos lugares mais trash da grande vitória. mesmo com o som falhando e um espaço físico que beira a insalubridade eles fizeram um show memorável. me surpreendeu a empolgação e fidelidade dos fãs e também a idade. acho fantástico como eles conseguem dialogar facilmente com uma geração mais nova que a própria banda.
também, destaco aqui relógio que é uma faixa que traz a participação do lô borges, que dispensa e excede qualquer adjetivo que eu tente usar pra qualificar. muito provavelmente essa foi a última coisa que o lô gravou em vida. dá pra ver ele cantando ao vivo com a banda no ótimo ilumina sonastério, que também traz comentários muito bons sobre o processo criativo do álbum.
air – moon safari (1998)
em maio de 2025 o wilco, uma de minhas bandas favoritas no mundo, retornou ao brasil e, tendo ido ao show imediatamente anterior deles em 2016, não haveria a menor possibilidade de que eu não estivesse presente no retorno deles quase uma década depois. eles se apresentaram no c6 fest, um festival de música chique e de gosto inquestionável no parque do ibirapuera. estavam presentes no lineup alguns outros artistas de que eu gostava e outros que eu só havia ouvido falar. o air entra nessa última categoria e foi me preparando para o show que eu resolvi ouvir com atenção o moon safari, álbum de estreia do duo francês lançado em 1998 e que somente em 2025 descobri ser praticamente uma unanimidade.
me sinto privilegiado de ter estado em um show em que eles tocaram o álbum na íntegra. há no minimalismo espacial de moon safari um tecido auditivo que permeia todo o álbum que me gera um sentimento do que seria ouvir o tranquility base hotel & casino do arctic monkeys se ele tivesse ganhado uma reedição feita pelo kraftwerk. o disco inteiro é uma viagem e minha recomendação é de que ele sempre seja ouvido por completo. os sintetizadores presentes em todo tempo que criam a massa de bolo do álbum ganham companhia de instrumentos de corda e ocasionalmente de voz. é um feito que um mesmo álbum consiga sustentar sem perder os elementos de concisão uma canção de amor tão bonita quanto you make it easy, em que o instrumental da banda entra em segundo plano para dar destaque à sensível voz de beth hirsch e a letargia melancólico-espacial de new star in the sky. ficou bastante claro pra mim por que moon safari é tão atemporal.
favoritas: la femme d’argent, sexy boy, you make it easy, new star in the sky, le voyage de pénélope
mais: em dezembro de 2025 o air fez uma apresentação fantástica no tiny desk. não é o moon safari na íntegra mas não deixa de ser hipnotizante à sua própria maneira.
bad bunny – debi tirar más fotos (2025)
a música do bad bunny não era novidade pra mim. ele já era um fenômeno cultural há muitos anos e eu tentei ouvir a música dele no auge de un verano sin ti, disco que ele lançou em 2022 — mas sempre tive certa dificuldade em ouvir reggaeton sem achar meio cansativo. há uma certa barreira cultural que não entendo muito, mas que certamente tem relação com o fato do bad bunny ser o artista mais ouvido em toda a américa latina exceto o brasil. em 2025 fiz minha parte para que ele passe a ser o artista mais ouvido também no brasil: debi tirar más fotos me conquistou muito rapidamente e provavelmente é meu álbum favorito dessa listagem.
fica muito evidente pra mim de onde vem o sucesso estrondoso de bad bunny. falar que benito é um artista medíocre empurrado por uma superprodução pop em sua música é de uma simplificação que passa a ser somente uma forma de mentir. a verdade é que ninguém mais sustentaria debi tirar más fotos (em português “eu devia ter tirado fotos ruins”, pra quem não sabe) com tanta maestria, partindo do reggaeton clássico que abre o álbum em nuevayol e passeando com fluidez pela salsa de baile inolvidable ou pelo house (!) de el clúb. há referências aqui que me escapam por desconhecimento meu da cultura portoriquenha, mas não se engane: os recortes de gêneros musicais diferentes, as letras, as participações — nada está ali por acaso.
é um pouco difícil entender por que DTMF me virou uma chavinha com o gênero que me fez inclusive ouvir os álbuns anteriores (e agora gostando muito deles). é possível que eu tenha sido conquistado pela mensagem e ficado pela sonoridade — algo muito raro de acontecer comigo, que nem conheço a letra de músicas que ouço incessantemente mesmo em português. há um comprometimento com a identidade muito forte no álbum e essa identidade se manifesta em diversas maneiras. está em benito rimando sem um beat de fundo sobre sua família em la mudanza, no discurso de soberania firme de lo que le pasó a hawaii e na lembrança fotográfica de DtMF. acho que ali eu fui capturado; poucas coisas me atingem tanto quanto falar sobre a nostalgia do registro. nunca fui em san juan, mas DtMF me desperta sensações como se eu tivesse sentindo exatamente a mesma coisa que benito. não foi só uma primeira impressão: estou ouvindo essa exata faixa enquanto escrevo o texto e algumas lágrimas apenas surgem naturalmente. não sei por quê.
favoritas: nuevayol, perfumito nuevo, el club, turista, pitorro de coco, dtmf, la mudanza
mais: ouça os outros álbuns também. otro atardecer talvez seja a música indie mais legal que ouvi em 2025. não entendo como me escapou quando tentei ouvir no lançamento de un verano sin ti. leia também a resenha do álbum feita pela pitchfork porque eles fizeram o trabalho de pesquisa muito bem e estão listadas ali várias das referências que acabam passando batidas pra quem não entende todo o panorama envolvido.
tá. e o que mais?
tame impala – deadbeat (2025): kevin parker fez mais uma vez. deadbeat é um álbum que faz o imediatamente anterior slow rush parecer a ponte perfeita entre o synthpop de currents e os elementos pesados de techno de seu sucessor. aqui o sr. tame impala se permitiu seguir em suas viagens de forma mais marcada, abusando dos elementos eletrônicos de percussão mas ainda assim entregando um indie pop perfeito em dracula. tem pra todos os gostos.
don l – caro vapor II – qual a forma de pagamento?: se há um lançamento do don L em algum ano, ele com certeza irá figurar numa eventual listagem de álbuns do período feita por mim. com pitadas de funk, afrobeat e milton nascimento, a segunda mixtape caro vapor é impecável como se espera e nos deixa curioso pelo que vem por aí numa eventual continuação da trilogia roteiro pra ainouz.
rubel – Beleza. Mas Agora a Gente Faz o Que com Isso?: eu não sou um grande crítico de As Palavras, disco anterior de rubel que por sua característica mais experimental dividiu opiniões de quem tanto gostava dele fazendo aquela pegada voz e violão que o consagrou. fato é que beleza (não vou citar o nome inteiro, me ajuda aí) representa um retorno a essa estética mais intimista. aliás, este é mais um dos álbuns da lista que tive a satisfação de ver ao vivo ao longo do ano. pra além da sonoridade mais orgânica, este provavelmente é o álbum mais literário de rubel. o que pra mim é uma pena, visto que sou um iletrado. talvez eu pudesse ter aproveitado ainda mais esse disco.