Guia prático de música pela internet

No final da última semana o meu plano familiar do Spotify foi cancelado. Questões semânticas que tentam encontrar a diferença entre “plano familiar” e “plano residencial” não vêm ao caso e já foram abordadas pelo Ghedin neste post na Gazeta do Povo. O fato é que eu já não andava muito satisfeito com o Spotify — Provavelmente porque o Rdio me deixou mal acostumado com um serviço impecável de streaming em termos de organização, biblioteca e apresentação. A finalização do plano familiar aliada à indisposição de pagar um plano individual foram o pontapé que eu precisava pra buscar boas alternativas. Se é que elas existem.

Assim sendo, tentei levantar os meus requisitos básicos para um novo serviço de música e com base nisso vou procurar algumas opções que possam tentar me atender. São eles:

  1. Boa organização de biblioteca. Coisa que o Spotify, por sinal, nunca me entregou — o “Your Music” é confuso, falho, bagunçado, a navegação é complicada. Eu cuido da minha biblioteca do iTunes como se fosse um filho (e pretendo continuar mantendo porque, de todo modo, eu tenho iPods pra sincronizar), mantinha a minha coleção no Rdio meticulosamente organizada e gostaria muito de voltar a cuidar da biblioteca por streaming.
  2. Acervo Razoável. Requisito óbvio, mas importante de ser listado: Nem tudo que eu ouço está disponível em qualquer serviço. Quando entrei no Spotify, passei uns bons anos reclamando da ausência do The Life Aquatic, do Seu Jorge. Não me importo de que o serviço não tenha as bootlegs do Wilco obtidas em origens duvidosas que mantenho em arquivo no computador, mas seria particularmente interessante poder ouvir Beatles, Roberto Carlos e Sá & Guarabyra no mesmo serviço. O conteúdo nacional pode ser um escorregão em vários serviços, já que o Spotify é bastante forte por aqui.
  3. Interface. Sério, o design é importante. O visual é importante. A disposição dos itens é importante. A tipografia é importante. Vai além do que é agradável aos olhos e chega ao que é fácil de ser visualmente compreendido. Os jovens chamam de UX. Enfim.
  4. Álbuns, álbuns, álbuns! O Spotify é imensamente focado em playlists. Pode ser legal pra algumas pessoas. Pra mim é péssimo: A minha forma principal de ouvir música ainda é colocando um álbum pra tocar do começo até o final. Tenho algumas playlists temáticas, outras setlists de show, mas, em geral, eu ouço discos completos. Tenho que é a forma correta de apreciar a obra: Do jeito que o autor a concebeu, na ordem que ele achou interessante, no formato em que ela foi pensada.
  5. Onipresença. Eu ouço música nos mais variados dispositivos. Geralmente, no Mac e no iPhone, então aplicativos pra essas plataformas são fundamentais. E precisam ser apps desktop — se a única alternativa for um webplayer, está fora de consideração. Aplicativo para o PS4 é um diferencial importantíssimo já que eu tenho o costume de jogar Overwatch ouvindo a coletânea de grandes sucesso do Raça Negra no Spotify. Infelizmente eu duvido que algum outro serviço tenha a abrangência do referido neste quesito, mas não custa sonhar. Pontos extras se houver funcionalidade de controle remoto.
  6. Não ser o Spotify. Também é muito importante esse ponto. Eu sou vingativo e rancoroso e vocês cancelaram o meu plano família. Hotários.

Diante disso, tenho algumas poucas alternativas que vou testar nas próximas semanas e descobrir se alguma coisa se salva. Levantei também algumas vantagens e desvantagens que saltam mais os olhos antes de usar as plataformas de facto. São elas:

  1. TIDAL. Vantagens envolvem a qualidade de áudio superior em qualidade HiFi/Master. Desvantagens incluem dar dinheiro pro Jay-Z.
  2. Apple Music. Tem o plus de ser integrado com o iTunes. Tem a desvantagem de ser integrado com o iTunes.
  3. Google Play Music. Parece ser presente em várias plataformas e a interface parece limpa o suficiente. Infelizmente envolve vender sua alma pro Google.
  4. Deezer. Tem o terrível ponto negativo de ser o Deezer.
  5. Voltar pro Spotify com o rabo entre as pernas. Tem sempre essa alternativa, né? Por mais que eu viva em guerra com o Spotify, a verdade é que hoje ele me atende em praticamente tudo que eu preciso. Se nenhum concorrente me atender minimamente (e eu não sei se terei paciência pra testar todos), não me resta alternativa a voltar para esse grande aplicativo pago de playlists que, todos sabemos, é uma zona.

Vou começar testando o TIDAL por alguns dias. Me deseje sorte.

NOLF2_Manual

Uma espiã no caminho da H.A.R.M.

A verdade é que pouquíssimas coisas me fariam configurar um subdomínio, instalar o WordPress e ligar o teclado mecânico as 23h de uma segunda-feira (desde já desculpe pelo barulho, vizinhos). Na verdade, eu mesmo não sei que coisas seriam essas já que a categoria “coisas que fazem valer a pena pegar o teclado as 23h de segunda-feira” acabou de ser criada, mas posso garantir que uma delas é escrever um post sobre No One Lives Forever 2. É hora de resolver essa pendência que me tira o sono há anos. Quase.

NOLF2_Capa

– Mas Bonela, de onde você tirou esse treco?

Em algum ano situado entre 2003 e 2005 (acho) eu emprestei os meus preciosíssimos CDs do OddWorld: Abe’s Exoddus para uma prima que eventualmente reconheceu que não fazia a menor ideia de onde os CDs estavam. Pra tentar compensar a perda ela me presenteou com um joguinho recém-publicado em terra brasilis chamado No One Lives Forever 2. Na época eu achei um excelente negócio porque o jogo tinha caixa e eu gosto muito de caixas.

No One Lives Forever é uma série de dois joguinhos para PC lançada no começo dos anos 2000 desenvolvido pela Monolith (o segundo título, do qual vou falar de agora em diante, em 2002) e publicado pela Fox Interactive sobre a qual você possivelmente nunca ouviu falar. Os jogos, ambientados na década de 60, te colocam no papel de Cate Archer, uma agente secreta que trabalha para uma organização secreta mundial chamada UNITY que tem como principal objetivo impedir qualquer maluco com intenções megalomaníacas de dominar o mundo que tenha alguma chance de realmente fazer alguma coisa. No melhor estilo três espiãs demais, Cate conta com um arsenal de cacarecos tecnológicos disfarçados de cosméticos tais como um batom câmera, um spray de cabelo maçarico ou um cortador de unhas especializado em lockpicking. Ver essas ferramentas no manual do jogo antes mesmo de terminar a instalação já foi suficiente pra jogar minhas expectativas para as alturas.

#LookDoDia: Casualmente tirando fotos com meu batom.
#LookDoDia: Casualmente tirando fotos com meu batom.

Existe uma enorme quantidade de elementos que merecem destaque em NOLF, a começar pelo humor típico de filmes e seriados de espionagem dos anos 60 como Agente 86 ou mesmo 007. Todos os elementos estão lá: Dos vilões com o corpo completamente enfaixado aos diálogos propondo situações completamente absurdas.

Se você optar por jogar o título com um ritmo menos acelerado e se der ao luxo de prestar atenção nos diálogos entre os inimigos (desde que, claro, eles não notem a sua presença) você vai ser presenteado com pérolas como esta (minha favorita):


https://www.youtube.com/watch?v=Rq5tLqTyuO0
I DON’T WANT A MONKEY!

Ou esse diálogo sobre mulheres, crime e sexismo muito antes de todo mundo falar sobre mulheres, crime e sexismo:


https://www.youtube.com/watch?v=YE6df_tCfPU
Melhor perguntar pra minha irmã.

A trilha sonora de NOLF também é entregue com maestria. Não apenas porque ela remete perfeitamente ao tema que inspira todo o título (e aqui retornamos aos clássicos filmes de espionagem), mas também porque ela é adaptiva. Isto significa que se você for descoberto e tiver que fugir de três ninjas enfurecidas jogando shurikens em você, a música vai naturalmente se alterar e assumir um tempo mais acelerado. Enfatizando: Não é que a música ambiente acaba e a música de alerta começa; a música ambiente se torna a música de alerta. E depois volta a ser a música ambiente. Em todas as situações, é possível perceber o mesmo leitmotiv. Um trabalho admirável.

NOLF2_Cate_Gatissima

Já que estamos falando de um jogo (lembra?), é necessário fazer menção também à variedade de cenários que Cate irá encontrar em suas missões. Frequentemente intercaladas com visitas ao QG da UNITY, a agente precisará dirigir um snowmobile (algo parecido com um Jet Ski pra andar na neve), se esconder embaixo das passagens de madeira de uma vila oriental defendida por ninjas ou se infiltrar durante a noite em um quartel general protegido por soldados fortemente armados. Em todas as fases você encontra documentos e comunicados que podem ser dicas importantes sobre a ronda dos inimigos ou a lista de compras do patrulheiro que você acabou de derrubar. O fator inusitado de algumas situações pode te fazer gargalhar atrás do teclado: Existe uma fase em que um inimigo que porventura é um mímico foge em um monociclo, ao que Cate prontamente reage subindo em um triciclo para eliminar seu desafeto. A partir daí, o jogo assume uma mecânica de Rail Shooter.


https://www.youtube.com/watch?v=Ny2scpc_N5w
É sério.

– Estou babando no teclado. Como eu faço pra jogar essa maravilhosidade?
Boa sorte. O estúdio que conseguiu os direitos para publicar System Shock no GoodOldGames (onde, aliás, NOLF ocupa a posição de oitavo título mais desejado pelos usuários) conseguiu os direitos de marca para a série No One Lives Forever, mas as notícias não são otimistas. Numa entrevista para o Kotaku, a Night Dive afirmou que os atuais detentores da propriedade intelectual do jogo (não se sabe ao certo, mas provavelmente a Warner Bros.) não demonstraram muito interesse em procurar o armário velho onde se encontra o contrato que transfere a propriedade do título para eles. Por enquanto, a sua única forma de jogar NOLF é procurando alguma relíquia no eBay/MercadoLivre ou baixando um torrent.

– Mas Bonela, ainda não entendi por que é que eu nunca ouvi falar desse supra-sumo da arte moderna.

Eu honestamente não compreendo por que se fala tão pouco sobre No One Lives Forever. Mesmo os dois títulos tendo sido vencedores de diversos prêmios de jogo do ano e detentores de uma respeitável pontuação 91/100 no Metascore, a série nunca foi assunto de nenhuma roda de amigos quando o assunto era videogame. Talvez este silêncio trate-se de obra de Cate Archer tentando ocultar seu trabalho. Não é bom para uma espiã que todos conheçam seu modus operandi.

BÔNUS:

Voltando ao precioso disco que ganhei da minha prima, alguns anos depois eu estava jogando tranquilamente (numa época em que os jogos ainda precisavam do CD dentro do drive pra abrirem) o título quando escuto um assustador barulho de tiro. Eu já estava embaixo da mesa (ok, não) quando me dei conta de que o CD 2 do NOLF havia explodido dentro do drive. Perdi o jogo e perdi o drive de CD-Rom, mas a caixinha com o manual ficou guardada no meu coração. E em algum lugar da minha casa que eu desconheço, porque eu procurei feito louco antes de escrever este post. E vou continuar procurando depois de publicar. A culpa é inteiramente sua, agente Archer.

MAIS SOBRE NO ONE LIVES FOREVER 2:

http://kotaku.com/the-sad-story-behind-a-dead-pc-game-that-cant-come-back-1688358811
Texto no Kotaku explicando em detalhes a história da tentativa de publicação de NOLF para sistemas modernos no GOG – e por que não devemos ter muita esperança nisso

http://www.iasig.org/aan/NoOneLivesForever.shtml
Estudo completíssimo sobre áudio adaptivo que disseca as profundezas da música renderizada em tempo real de No One Lives Forever 2.

http://kotaku.com/gamings-greatest-unsung-heroine-695285585
Excelente artigo também do Kotaku mostrando que Cate talvez seja a mulher heroína que muita gente procura nos jogos de hoje em dia, mesmo com a enorme quantidade de piadinhas infames que escuta de seus parceiros de trabalho durante a trama.